NOTAS HISTÓRICAS SOBRE MOINHOS DE VENTO
Definição de moinho
(do latim 'molino') - Engenho para moer cereais,
composto de duas pedras ou mós, accionadas pelo vento, água ou
motor, colocadas uma sobre a outra;
INTRODUÇÃO
Falar de moinhos é falar de história, de evolução, de sociedade,
de cultura, de vida, enfim do Homem e, portanto, é falar do
Pensar e do
Fazer…
À primeira vista, falar de moinhos de vento, hoje, seria talvez
falar de peças moribundas, do fim das coisas…, que por terem sido
destronadas na sua eficiência por outras mais rentáveis, estariam
já hoje a passar para o domínio da arqueologia.
Mas porque esta atitude parece demasiado conformista
e passiva, o texto que se segue pretende ser um contributo para a
compreensão dos moinhos, da importância que já tiveram, mas também
da que lhe devemos ainda dar como testemunhas do engenho do Homem
no aperfeiçoamento das técnicas de utilização das energias
renováveis.
A preservação, tão completa e fidedigna quanto possível, de um
certo número de moinhos de vento, tão característicos da paisagem
oestina deverá ser considerada como uma manifestação de maturidade
cívica e cultural do mesmo nível da preservação do restante
património.
A história poderia começar como tradicionalmente começam as ...
de encantar: - Era uma vez … um moinho de vento!
PASSADO, PRESENTE E FUTURO DOS MOINHOS DE
VENTO
A história dos moinhos de vento quase já só tem
passado, uma vez que presentemente, e
salvo raras excepções, os moinhos de vento já não moem grão para
produzir farinha nas quantidades e preços exigidos pelos modernos
consumidores. Como também não se prevê que possam vir a ser
modernizados e agilizados ao ponto de serem mais rentáveis e
interessantes do ponto de vista industrial, o
futuro dos moinhos de vento passará
inevitavelmente para o domínio do interesse histórico -
museológico, e como tal cultural, didáctico ou outro.
Ainda assim, o presente parece estar a
cativar as atenções de autarcas e particulares, em consequência da
teimosia de cidadãos atentos e conscientes do real valor deste
património que urge preservar.
As acções de recuperação de moinhos de vento, em curso em
diversas autarquias da região oeste, são um sinal claro de que é
politicamente correcto recuperar, preservar e dar utilização
adequada a este tipo de património. Há já algumas unidades que,
tendo sido recuperadas com as suas funcionalidades originais,
produzem farinha que é utilizada localmente para a confecção de pão
em pequena escala. O moinho de Caixeiros, Silveira, é um bom
exemplo.
IMPORTÂNCIA DOS MOINHOS DE VENTO
Vertentes económica, social, política, geográfica,
cultural e patrimonial
Por questões estratégicas de ocupação do espaço, os moinhos de
vento portugueses encontram-se sempre localizados em zonas
suficientemente afastadas das povoações, por forma a garantirem
alguma equidistância em relação aos restantes aldeãos. Além disso
situam-se também num local de fácil acesso por terra, de maneira a
facilitar a recolha dos cereais e o posterior transporte da farinha
até às aldeias.
A localização dos moinhos no espaço, bem como a sua
implementação na paisagem, uma vez que é necessário o sítio ser
alto de modo a tornar possível um melhor aproveitamento da força do
vento, contribuem decisivamente, com o correr dos tempos, para os
transformar em algo que transporta uma certa carga sobrenatural.
Eles só dependem do vento para trabalhar, vento esse que,
provindo directamente de Deus, faz movimentar as velas e
as mós. Por outro lado, o próprio afastamento geográfico dos
moinhos, com o consequente afastamento do moleiro da restante
população, transfere para si uma grande dose de solidão e de
insociabilidade, factor decisivo, como se sabe, na disfunção social
e mesmo intelectual do ser humano.
A complexidade técnica do moinho, por seu turno, da
qual fazem parte peças essenciais e complicadas como a entrosga, o
carreto, os fuselos, a segurelha ou o cadelo, dificulta também a
compreensão do seu funcionamento por parte da população
circundante.
O construtor do moinho, para além de ser necessariamente alguém
com algum potencial económico, uma vez que o preço da pedra e das
ferramentas necessárias à sua construção é substancial, tem também
de possuir conhecimentos técnicos bastante profundos, aliados a
algumas noções básicas de eólica e de engenharia.
Os dados de natureza física, como a compreensão da relatividade
dos choques entre os corpos, da fricção e de todos os fenómenos
directamente relacionados com o esmagamento das sementes, terão
contribuído também para alicerçar a convicção de que o moleiro é,
de facto, um ser diferente.
Em último lugar, o tipo de pedra utilizado na construção das
mós, quer na parte dormente, quer na movente, pressupõe um vasto
conhecimento geológico e geográfico das regiões em questão,
necessário para encontrar os tipos de pedra mais adequados à moagem
de cada variedade de grão.
CRONOLOGIA
Segundo a Prof. Drª. Mª Jesus Rubiéra Mata, Abu Zayd ' Abd
ar-Rahmãn ibn Muqana, poeta, natural de Al-Qabdaq (Alcabideche),
caracteriza, na viragem do primeiro milénio (Séc. X), a vida rural
no actual concelho de Cascais como sendo a de uma terra bastante
rica mas frequentemente visitada por cobradores de impostos, pelo
que a opulência era transformada em extrema pobreza. Ibn Muqana, ao
utilizar a metáfora da Nora das Nuvens, transforma-se no
primeiro escritor da Península Ibérica a referir expressamente a
existência de moinhos de vento nestas paragens.
Em 1182 há notícias de um moinho de vento de eixo horizontal na
região de Lisboa que foi doado ao Mosteiro de S.Vicente de
Fora.
Em 1262 teria existido um moinho de vento de eixo horizontal em
Infonte, no termo de Óbidos como é referido no Tombo das
Propriedades do Mosteiro de Alcobaça.
Em 1386 terá tido lugar a construção do moinho de maré de Aldeia
Galega e do moinho de maré do Montijo.
Em 1403 D. Nuno Álvares Pereira (1360-1431) mandou construir o
moinho de maré de Corroios e os frades carmelitas promoveram a
construção de alguns moinhos de maré na margem sul do Tejo.
No século XVI houve uma seca devastadora no centro da Península
Ibérica que poderá ter obrigado à procura de novas fontes de
energia, como, por exemplo, o vento. Muita gente considera que os
cruzados, regressados da Terra Santa, e a Ordem de Malta terão sido
os possíveis emissários deste novo tipo de construção. Neste século
teve lugar a divulgação dos moinhos de vento em Espanha e Portugal
e a difusão dos moinhos de barcas no Tejo e no Douro. Havia em
Lisboa, no princípio deste século, 246 atafonas (moinhos movidos
por animais) e, no seu termo, 300 moinhos; pelas maquias sabia-se
que moíam diariamente 400 moios de trigo.
Nos começos deste século o milho maiz foi trazido das Américas
pelos espanhóis, aparecendo em Portugal por volta de 1515 e 1520,
respectivamente em Coimbra e no Norte. Foi muito bem aceite,
estando o seu cultivo, já no séc. XVII, generalizado em todo o
país.
Em 1552, segundo João Brandão, havia cerca de 800 atafonas em
Lisboa que moíam anualmente cerca de 44560 moios de trigo, sendo as
atafonas domésticas responsáveis pela moagem de 10000 moios. Com a
dinâmica dos descobrimentos, a vida da cidade e dos estaleiros
exigia muito apoio, daí este número elevado de atafonas. Contudo,
este número foi diminuindo com o passar dos anos.
No séc. XVII assistimos à difusão do moinho de torre em Portugal
e à construção dos primeiros moinhos de vento nos Açores.
Sob o domínio castelhano, Lisboa terá perdido população com a
saída da corte portuguesa, dos nobres, dos artistas e dos
estudiosos. Após 1640, com o seu regresso, com alguma estabilidade
social conseguida então, a cidade retomou a dinâmica anterior,
tendo sido construídos os primeiros moinhos de vento de torre fixa
em alvenaria.
Em 1755 havia apenas 216 atafoneiros em Lisboa; mas no dia 1 de
Novembro um terramoto destruiu a maior parte da cidade incluindo a
maioria dos moinhos de maré que aí, e nas redondezas, existiam.
Posteriormente, foram quase todos reconstruídos.
Como consequência de alguns trabalhos de investigação prática no
seguimento do terramoto ou por evolução mais ou menos natural, no
fim deste século e/ou princípio do seguinte terão sido introduzidas
as velas latinas nos moinhos de vento, as quais se têm mantido até
hoje.
No séc. XIX foram modificados, ou mesmo substituídos, moinhos de
rodízio por azenhas. Em meados do século, nos EUA e Austrália,
usava-se o moinho de vento de armação para tirar água. No fim do
século começava o declínio da utilização dos moinhos de vento, o
que se estendeu ao séc. XX.
Em 1960 ainda havia cerca de 5000 moinhos de rodízio em Portugal
e em 1968, segundo Jorge Dias, havia 10000 moinhos em funcionamento
em Portugal, sendo 3000 de vento e 5000 de água.
Desta pequena referência cronológica aqui apresentada poderá
inferir-se que a torre dos moinhos de vento, tal como lhes
reconhecemos a forma, será do século XVII. Cremos mesmo que os
exemplares mais antigos que ainda hoje encontramos datarão desse
século. Um século mais tarde, terão sido aplicadas aos moinhos de
vento as velas triangulares em pano, as quais melhoraram
consideravelmente as suas características.